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Catálogo > Livros > Projectos Especiais > Quando os Cucumbas Cantam

Quando os Cucumbas Cantam

Tomás Medeiros

18,00 € 16,20 € (-10%)

Uma bela metáfora (metáfora?) sobre o imediatamente antes da independência de S. Tomé, o momento da euforia da libertação e o grito de desespero contra o que se passou a seguir

Numa mistura bem urdida de pseudo-ensaio ideológico e escrita poética, assistimos à aventura de Mé Flindó através dos perigos das estradas, da confusão das festas na cidade e das dúvidas sobre a independência. O canto que perpassa pela narrativa e paira sobre as personagens é o eco do destino trágico que as aguarda no final, a esperança que morreu. De tudo, só restará esse canto agoireiro e mítico dos cucumbas, ave imaginária criada pelo mesmo anseio frustrado do autor e que vai perdurar para além do tempo de Mé Flindó, a marcar o desespero vindouro.

Num fugaz, mas bem organizado apontamento narrativo, Tomás Medeiros não deixou de fora nenhum dos actores que fizeram o tempo da descolonização e da independência: o colono bom e o colono mau, a igreja, o político arrivista, o revolucionário de última hora, o povo incauto. E ficou tudo dito.

 

 

SOBRE O AUTOR

Tomás Medeiros (cidade de S. Tomé, 05.11.1931) é um escritor e pensador actualmente residente em Portugal. Foi médico, activista e dirigente político e militar. Concluiu formação em Medicina e estudos em Medicina Militar. Participou em inúmeras associações estudantis, na criação da UGA (União Geral dos Estudantes da África Negra Portuguesa) e foi co-fundador e dirigente de organizações de representação de estudantes africanos fora do seu continente. Participou activamente em organizações políticas de libertação de países africanos. Tem poesia, prosa e ensaios publicados em Portugal e no estrangeiro e figura em várias antologias temáticas.

 

Uma bela metáfora

Fernando Pessoa, ao fazer a crítica de uma exposição de caricaturas de Almada – outro são-tomense famoso e importante –  em 1913, escrevia: “Que Almada Negreiros não é um génio — manifesta-se em não se manifestar”. E na sua incongruência lúcida explicava logo de seguida que o que dizia era, afinal, uma apreciação positiva e encomiástica da obra de Almada, que depois se veio a revelar genial.

Este pequeno excurso serve para justificar que também eu gostaria de entrar neste jogo de palavras e dizer: Que a novela “Quando os cucumbas cantam” de António Tomás Medeiros é um manifesto, manifesta-se em não se manifestar. Só que, dito assim, parece que estou a reduzir uma obra literária ao nível do panfleto, o que não é, de modo nenhum, o caso do belo texto de Tomás Medeiros. Vamos então por partes.

O autor tinha umas contas a ajustar dentro de si com o processo revolucionário da terra onde nasceu. Mas o tempo da luta no terreno já lá vai há muito, quarenta anos passaram, e, no entanto, os factos e a realidade estão aí à nossa frente, para quem os quiser ver e sentir. Só que o espírito combatente por uma causa justa que Tomás Medeiros sempre demonstrou, quer na política, quer na medicina, andava no seu íntimo às voltas e às reviravoltas. O problema é que Tomás Medeiros é um poeta, um poeta de referência na literatura são-tomense, - é mesmo um dos poetas da literatura africana de expressão portuguesa que não pode deixar de figurar nessa mesma história literária - e por isso a sua arma é essencialmente a palavra. Ainda antes de andar na savana a bater o terreno, já tinha lançado umas metáforas para exprimir a sua incomodidade. Sempre com espírito crítico, sempre com o ideal como guia da sua actuação política. Agora, a novela “Quando os cucumbas cantam”, escrita em Agosto de 2003, quase de uma penada, como um grito, é uma bela metáfora (metáfora?) sobre o imediatamente antes da independência de S. Tomé, o momento da euforia da libertação e o sentimento de desespero causado pelo que se passou a seguir. Logo, nesse sentido, é um manifesto, mais, é um libelo.

Mas como se manifesta? Numa mistura bem urdida de pseudo-ensaio ideológico e escrita poética, assistimos à aventura de Mé Flindó através dos perigos das estradas, da confusão das festas na cidade e das dúvidas sobre a independência. O canto que perpassa pela narrativa e paira sobre as personagens é o eco do destino trágico que as aguarda no final, a esperança que se desvaneceu. De tudo, só restará esse canto agoireiro e mítico dos cucumbas, ave imaginária criada pelo mesmo anseio frustrado do autor e que vai perdurar para além do tempo de Mé Flindó, a marcar o desespero vindouro, pois “naquela noite ninguém dormiu com o sono leve, porque os cucumbas nunca mais deixaram de cantar no cimo dos telhados” (p. 48).

O texto insere-se no que se convencionou chamar novela: é rápido, conciso e incisivo, mas é por isso mesmo, um bem organizado apontamento narrativo, em que Tomás Medeiros não deixou de fora nenhum dos actores que fizeram o tempo da descolonização e da independência: o colono bom e o colono mau, a igreja, o político arrivista, o revolucionário de última hora, o povo incauto. E ficou tudo dito.

De todos eles sobressai o protagonista Mé Flindó e não é possível deixarmos de nos enredar por esta personagem apenas esboçada, que corporiza, pela sua inocência e aparente felicidade, tudo o que está implícito na história da colónia que um dia se tornou país.

Anotei até agora alguns apontamentos do modo como se manifesta este texto. Mas manifesta-se em não se manifestar porquê? A novela está servida por uma contenção de escrita e uma economia de narração que deixa na imaginação do leitor uma série de dúvidas e de interrogações sobre a única e pungente pergunta: valeu realmente a pena e o sacrifício?

A resposta só pode ser dada em contexto literário: um texto assim só podia ter sido escrito por alguém que viveu intensamente com o corpo o anseio da independência do seu país e que sofreu com a alma o resultado dessa luta que para um idealista e poeta se tornou quase inglória. São, por isso, fugazes, mas precisas, as pinceladas da descrição da festa da independência e ao mesmo tempo festa religiosa, o apontamento erótico do golpe de vento na saia de Mariana, as pequenas frases sintéticas que definem um revolucionário, um político prestes a ser corrompido, ou um desiludido do povo, para além de outros exemplos que deixo à descoberta de cada um, para não vos tirar todo o prazer da leitura.

Chegado aqui, permito-me sugerir desde já possíveis futuras leituras da obra do autor. E assim, sem qualquer intenção catastrófica, adianto que a novela “Quando os cucumbas cantam” é o “testamento” literário de Tomás Medeiros. Explico: Tomás Medeiros cantou a terra e o modo de vida da sua população em “Ilhas do Atlântico”, as vivências do seu tempo de permanência em S. Tomé, que se reflectem em “O meu primeiro beijo”, ou em “O novo canto da mãe”, escreveu alguns gritos de revolta (“Batepá”, “O meu canto Europa”), em poemas que foi deixando dispersos na “Mensagem” da Casa dos Estudantes do Império de que foi director, e em vários jornais. Com estes poemas ajudou a instituir e a sedimentar o sistema literário são-tomense. Muito depois das independências, passado o halo de esperança, tingido já de algum desalento que estas composições revelavam, escreveu um primeiro desabafo no romance “O automóvel do engenheiro Diakamba”, de 2003, que nos conduz ao mundo confuso e contraditório das ideologias africanas, neste caso em Angola, em época de pós-independência, realidade que o autor conheceu bem e que antecipava o descalabro a que hoje todos assistimos. Com um estilo mordaz e pleno de humor leva-nos pelos meandros de uma sociedade que se encontra face a uma realidade nova, nascida das lutas de libertação e que, mais uma vez, destoam dos ideais iniciais que promoveram essas mesmas lutas.

Depois, sentiu necessidade de reabilitar a memória de Amílcar Cabral, num ensaio em que afirmava que a sua verdadeira morte se deveu aos seus ideais, que não cabiam numa África liberta, é certo, mas entregue a dirigentes sedentos de poder, e publicou “A verdadeira morte de Amílcar Cabral”, em 2012. Com a novela “Quando os cucumbas cantam”, que agora vè a luz editorial, encerra a trilogia sobre os países em que viveu, em que lutou e que conhece bem, o que lhe permite ter uma visão profundamente crítica sobre os processos pós-independência, ao arrepio de todo e qualquer bom senso, revolucionário, político e humano. Na realidade, manifesta-se em não se manifestar, pois é sempre a sua voz de poeta idealista que fala mais alto, porque a palavra é a semente da acção.

No entanto, as repercussões dessa voz em surdina são visíveis e manifestas – continuemos o jogo de palavras – pois a resposta política à publicação desta novela em S. Tomé deu-a, há doze anos, um antigo membro do governo são-tomense – e poeta! – ao proibir a sua publicação no país, e, confessando razões anti-literárias, taxou-a de libelo acusatório, acusação que desenvolveu em carta ao autor, e é documento que figura como prova histórica documental em Anexo neste livro.

 

Depois de se ler a novela podemos perguntar-nos: Mé Flindó é Tomás Medeiros? E eu respondo: é. Ambos têm a mesma inocência, a mesma expectativa, a mesma desilusão. Só que Mé Flindó, quando vai à festa da independência, vai com a alma aberta para a esperança anunciada. Tomás Medeiros, que contribuiu de alma aberta para essa esperança, sabe que a farsa está a ser montada. Ambos regressam, um com “a esperança que trazia que se foi esboroando ao ponto de perder sentido”. (p. 45), outro com a ilusão desfeita do sacrifício, pessoal, familiar e político, de tantos anos de luta por um ideal.

Quis a Editora Althum, na pessoa do seu director Luís Nazaré Gomes encarregar-se da edição deste livro de Tomás Medeiros. O Luís Gomes não só contribuiu com o seu entusiasmo para que a novela saísse da gaveta da censura e da timidez do autor e pudéssemos todos usufruir de um tão belo texto, como ainda o aformoseou, Devemos salientar a excelente produção gráfica das Edições Althum e a descoberta fantástica de uma nova espécie ornitológica pelo traço de Susana Cruz, que nos dá a conhecer a forma e a plumagem dos cucumbas…

Por tudo isto saudemos o autor, Tomás Medeiros, a editora Althum e a sua equipa técnica, mas juntemos um agradecimento sincero pelo prazer de terem todos contribuído para pôr à nossa disposição um texto tão atractivo, tão rico e tão belo.

Obrigado igualmente pela vossa atenção.

29 de Maio de 2016  

Vitor Amaral de Oliveira

 

RTP África

http://www.rtp.pt/noticias/mundo/a-independencia-de-sao-tome-segundo-tomas-medeiros_n919247

 

Ano de edição: 2016

Formato: 14,5x22

Encadernação: Capa mole

Páginas: 60 a 2 cores

Classificação: Projectos Especiais

 

Quando os Cucumbas Cantam

 
 
     
 

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